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Carnaval ontem e hoje

Carnavais antigos

Os mais novos podem não acreditar, mas o quente do Carnaval de Vila Velha, há uns tempos atrás, eram os carnavais de clubes. O Clube Libanes ainda não existia, era a época dos Clubes Democráticos e Fenianos, que ficavam na Prainha, onde morava a alta sociedade canela-verde.

À noite, com o corso de volta a Vila Velha, o Carnaval continuaria nos salões dos clubes ornamentados nas respectivas cores. O interior desses salões estava cheio de serpentina e muito papel crepom que, em múltiplas formações sob o teto, desciam pelas paredes sem alcançar a altura mediana. Viam-se cartazes em profusão com desenhos alusivos ao Carnaval, como palhaços, arlequins, colombinas, máscaras coloridas, entre outros motivos, afixados nas paredes. Não faltavam as bolas de sopro coloridas e bem dispostas pelo salão, em especial nos Democráticos, com o festeiro Miguelzinho Aguiar. Tudo pronto. O assoalho do salão estava limpo, com parafina de vela raspada e espalhada em toda a sua extensão, suprindo-se assim a falta de cera, dando brilho e diminuindo o levantamento de poeira, no arrastar, levantar e bater os calçados dos foliões em movimento. Os próprios pés dos foliões encarregavam-se de espalhar a parafina com os seus movimentos mais inusitados de pulos e requebros e no arrastar das danças sobre o assoalho.

Tudo pronto, os bailes de Carnaval duravam três dias, indo até altas horas da madrugada. Os salões enchiam-se de serpentinas e confetes coloridos. A lança-perfume, em jatos direcionados reciprocamente em damas e cavalheiros, aromatizava o ambiente. Quando uma dama retribuía mais de uma vez ao jato de lança-perfume, entendia-se que ela estava aceitando a corte, e assim uniam-se animados pares que, de mãos dadas com outros, formavam correntes que depois se transformavam em rodas e giravam de um lado para outro com folguedos e cantorias. Essas rodas eram desfeitas e refeitas várias vezes e a noite toda era cheia dessa animação alegre e de muita cantoria. E viva o Carnaval!

Orquestras e carnavalescos ficavam em atividade até altas horas da madrugada, estendendo-se às vezes até as cinco da manhã. Quando havia uma só orquestra esta fazia a cada hora um intervalo de quinze minutos para descanso dos músicos. Como não havia microfone, o som dos instrumentos dependia da força de quem os tocava. Para os músicos o melhor dia era a terça-feira, pois nesse dia o baile terminava, impreterivelmente, à meia-noite. Em respeito à Quarta-feira de Cinzas, à meia-noite todos deixavam o salão e se recolhiam às suas casas, onde tiravam uma pestana para, às seis horas, mesmo com ressaca, se apresentarem na igreja, onde recebiam, na testa, após os rituais da missa, a cruz de cinzas.

Se hoje apenas uma troca de olhares já basta para iniciar os beijos de Carnaval, nessa época, quando uma moça retribuía mais de uma vez ao jato de lança-perfume, entendia-se que ela estava aceitando a paquera, e assim uniam-se animados pares que, de mãos dadas com outros, formavam correntes que depois de transformavam em rodas e giravam de um lado para outro com danças e cantorias. Essas rodas eram desfeitas e refeitas várias vezes e a noite toda era cheia dessa animação.

E viva o Carnaval! De ontem e de hoje!

Nota do site: O lança-perfume foi proibido nos anos 60, pois são inalantes, como são também conhecidos solventes ou substâncias voláteis.

 

Fonte de pesquisa: Ecos de Vila Velha, 2001
Autor: José Anchieta de Setúbal
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2013

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