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Eurípedes Queiroz do Valle – Por Elmo Elton

Eurípedes Queiroz do Valle - Fonte: Blog Vitrine Capixaba

Eurípedes Queiroz do Valle, ou simplesmente Queiroz do Valle, como gostava de ser tratado, nos últimos tempos, por seus companheiros de magistratura e de imprensa, nasceu em Benevente, hoje cidade de Anchieta, no Espírito Santo, a 28 de janeiro de 1897. Era filho do desembargador Clarindo Ciro do Valle e de Etelvina Queiroz do Valle. Diplomou-se pela Faculdade de Direito da Bahia em 1918. De retorno a seu Estado, aqui exerceu os cargos de Juiz de Direito e de Chefe de Polícia. Desembargador do Tribunal de Justiça, foi ali vice-presidente e presidente, por duas vezes, tornando-se altamente respeitado pelos demais magistrados, tanto pela sua conduta exemplar no exercício de tais funções como pela sabedoria de seus pareceres e julgamentos. Também exerceu o cargo de vice-presidente e presidente do Tribunal Eleitoral do Estado do Espírito Santo. Foi, ainda, além de Diretor de nossa Faculdade de Direito, professor de Português e Literatura, assim como de Direito e Policiologia.

Em crônica estampada no seu livro Micrólogos (1968), esclarece que descende, pelo lado materno, da família Queiroz de antigo tronco português. Um dos galhos desse tronco, vindo para o Espírito Santo, reverdeceu em Vila Velha, hoje cidade do Espírito Santo. Do lado paterno, herdou o Valle de uma velha estirpe de magistrados baianos. "Com apenas três anos rumou, com a família, para o norte, para a terra de Castro Alves. Ali fez o curso primário e secundário. Foi um mau estudante de Matemática. Da matéria em geral e da álgebra e trigonometria em particular. Nunca pôde compreender como "menos com menos pode dar mais" nem para que servem a "tangente e cotangente". É inimigo pessoal de ambas. Formou-se, depois, em Direito. Fez o curso jurídico durante a Primeira Guerra Mundial. Exatamente de 1914 a 1918. Apesar de estudar numa época de bombardeios tremendos, nunca foi atingido por nenhuma "bomba". Iniciou a vida pública como juiz numa comarca do interior baiano. Com o constante atraso de seus vencimentos, verificou, para logo, a sua nenhuma vocação para o apostolado da fome. Deixou, por isso, o cargo e retornou à terra natal, reiniciando a vida no Ministério Público. Em 1924 o Dr. Florentino Avidos entregou-lhe a Chefatura de Polícia do Estado. Como todo Chefe de Polícia que começa quis acabar com o jogo-de-bicho. Baixou, para tanto, competente portaria proibitiva e publicou-a, para os devidos efeitos. Naquele dia, todos jogaram no número da portaria e ganharam. Ingressou, depois, na magistratura vitalícia do Estado. Em 1950 chegava ao ponto final da carreira, mas só se aposentando em 1967. Esclarece ainda que, "ao atravessar a fase perigosa dos 18 anos, tentou, como todo rapaz, a Poesia. Teve, porém, o bom senso de abandoná-la. E tratou de recolher todos os sonetos publicados. Percebeu, a tempo, o perigo de ser poeta, quando, para o próprio nome, só encontrava rimas como velocípedes, palmípedes, quadrúpedes e outros assim". Nas horas vagas, estou repetindo trechos de seu livro Micrólogos, escreve crônicas para os jornais. Procura fazê-las pequenas, leves, digestivas. Teve sempre um grande respeito pela paciência alheia. Era católico, apostólico e "romântico", como diziam os colegas. Gostava de guiar o próprio automóvel. Preferia as ruas e estradas sem postes. Apreciava a boa música. Tocava um pouco de violino, violão e piano. Mas sempre em casa, para uso doméstico, e com as janelas fechadas por causa dos vizinhos. Falava o francês e o espanhol. Não morreria de fome se o soltassem em Nápoles e Miami com algumas liras e dólares no bolso. Falando o francês ou o espanhol, tinha o cuidado de se exprimir sempre mal, como aconselhava o seu antepassado Eça de Queiroz. E com aquele acento solto, próprio de quem não tem o menor interesse em perder a nacionalidade de origem de que tanto se ufanava.

A personalidade de Eurípedes Queiroz do Valle, como escritor, era das mais interessantes. Homem de sérios estudos, conhecedor de tratados de Direito, de Filosofia, de Literatura, sabia, em palestra com os amigos, disfarçar sua vasta cultura. Assinando artigos para a imprensa, ninguém o imaginaria um polígrafo. Era apenas o risonho cronista Beneventino, pseudônimo que o tornou conhecido e admirado por todos. Nas crônicas que publicou em jornais e revistas de Vitória, e foram tantas, ressalta-se o comentarista leve, sutil, quer quando focalizando ocorrências do cotidiano, quer quando retratando esta ou aquela figura ou mesmo quando rememorando cenas de que foi testemunha. Quem acaso lesse uma de suas crônicas, jamais o haveria de esquecer, e passaria até a adquirir os jornais da cidade, sempre na esperança de saborear-lhe um novo trabalho. Assim fiz eu, assim outros, muitos outros o fizerem. É que ele sabia descobrir o lado cômico, caricato de seus personagens, abordava o pitoresco dos fatos em foco, escolhia, com precisão, o ângulo melhor a ser fotografado, divertia-se a si próprio e divertia os leitores. Dotado de uma ironia esvoaçante, às vezes socrática, sempre comunicativo, espirituoso, era um legítimo causeur, daí, onde estivesse, a seu lado estariam os amigos, os admiradores, os que com ele aprendiam a alegria de viver.

Mas Eurípedes Queiroz do Valle não foi apenas o aplaudido cronista de Vitória. Foi, também, historiador, dicionarista, biógrafo, jurista, jornalista. Publicou muitos livros, sendo que em todos paira a marca de seu estilo gracioso, sedutor, a linguagem objetiva, concisa e rápida. Escrevia com a preocupação de ser lido, e não se perdia em palavras ou frases desnecessárias. Era um registrador consciente, embora apaixonadamente bairrista, de nomes, fatos e coisas de sua terra.

Um de seus livros, O Estado do Espírito Santo e os espírito-santenses, compõe-se de inteligente seleção de dados e informes, de aspectos e curiosidades da pequena província. O autor, di-lo ele próprio, procurou, ali, satisfazer a todas as categorias de leitores, assim é que o historiador como o geógrafo, o jurista como o poeta, o naturalista como o biógrafo, o educador como o tupinólogo, o humanista como o curioso do folclore regional encontrarão nele muito o que conhecer e aprender. O cuidado com que procurou relacionar as fontes e matrizes dos assuntos versados habilita o leitor, por outro lado, a se aprofundar, querendo, no exame e conhecimento daqueles de sua preferência pessoal. O livro, no seu todo, tem caráter didático, é um guia para os professores e uma fonte segura de conhecimentos para o próprio estudante capixaba. Este livro constitui ampliação de dois de seus trabalhos anteriores: Breve notícia sobre o Espírito Santo e sua capital e Pequeno dicionário informativo do Espírito Santo. Eurípedes Queiroz do Valle era, repito, de um bairrismo que se evidenciava a cada hora. Louvava, quer conversando ou escrevendo, a nossa natureza, a mais pujante para ele, os acidentes geográficos, a orografia, e as praias, e o porto de Vitória, tradições e costumes, pratos típicos da cozinha capixaba, e templos, e ruas, figuras da sociedade e tipos populares, assim como a nossa literatura, assinalando sempre, com garbo, que todas as expressões vigentes no Brasil encontram ressonância no Espírito Santo, já que aqui "florescem todas as escolas e gêneros literários conhecidos".

Além dos livros já referidos, eis que vários trabalhos, de feição literária, cívica ou jurídica, lhe enriquecem a bibliografia, nela se incluindo, a par de estudos de maior fôlego, conferências, aulas inaugurais, discursos, perfis biográficos, relatórios, monografias.

Embora cidadão de múltiplas responsabilidades profissionais, chefe de família jamais descuidado das obrigações larárias, Eurípedes Queiroz do Valle ainda encontrava tempo para se constituir, ao lado de Augusto Lins, o maior animador das atividades culturais de Vitória. Não houve aqui, por mais de quarenta anos ininterruptos, quem o sobrepujasse nos movimentos articuladores em favor da cultura. Programassem, entre nós, a fundação ou reorganização de qualquer entidade, a promoção de congressos e quinzenas de arte, ciclos de estudos, almoços, exposições, recitais de poesia, concertos e, de pronto, se contaria com sua irrestrita adesão. Era, então, quem redigia, quase sempre, os estatutos de novas entidades surgidas, registrava-os, promovia sessões, debates, assembléias, apresentava sugestões, lavrava atas, fazia contatos com a imprensa, expedia ofícios, telegramas, convites. Tornava-se inexcedível nesse labor. E dada a sua maneira simples, cordial, era pessoa finamente educada, todos, fossem escritores, juristas, artistas, homens de imprensa, todos se compraziam de tê-lo como líder e conselheiro. É que ele, espontaneamente, emprestava aos agrupamentos intelectuais não apenas o trabalho animador mas, ainda, o altíssimo prestígio de seu nome. Exerceu, de 1941 a 1963, a presidência da Academia Espírito-santense de Letras, só deixando o cargo a seu pedido, ainda que sob o protesto de todos os acadêmicos. Secretário geral e presidente, por muitos anos, do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, presidente da Associação Espírito-santense de Imprensa, e da dos Juristas do Espírito Santo, esta por ele fundada, ali exercendo o mandato por mais de quinze anos. O tradicional Clube Vitória, em sua melhor fase, também o teve como presidente. Foi rotariano dos mais ativos. Instituições culturais do Estado e de outros pontos do País elegeram-no para os seus quadros. Foi delegado do Espírito Santo junto à Federação das Academias de Letras do Brasil com sede na cidade do Rio de Janeiro.

Guimarães Rosa costumava afirmar que viver é difícil. Sim, concordamos todos, viver é difícil. Naturalmente que Eurípedes Queiroz do Valle também estaria de acordo com o famoso contista, mas, tal como diz a canção popular, soube sempre sacudir a poeira e dar volta por cima de todas as dificuldades deparadas no caminho. Decepções se as teve e certamente as teve como todo homem, as disfarçou, escondeu-as aos olhos dos que o cercavam, mostrando-se a todos com seu sorriso cativante, braços abertos para os companheiros, para os que procuravam o aconchego de sua amizade, sempre cálida. Era uma lição permanente de otimismo. Soube se dar, se repartir, soube ser irmão e amigo, e por isto mesmo, recebeu, ainda em vida, a consagração dos seus coestaduanos.

Eurípedes Queiroz do Valle, falecido em Vitória, a de junho de 1979, vive, hoje e para sempre, na saudade de todos nós, seus amigos e admiradores.

 

Fonte: Velhos Templos de Vitória & Outros temas capixabas, Conselho Estadual de Cultura – Vitória, 1987
Autor: Elmo Elton
Compilação: Walter de Aguiar Filho, setembro/2017

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Américo Bernardes da Silveira foi prefeito de Vila Velha entre 1977 e 1982, em segundo mandato. Consta que herdou uma grande dívida junto ao sistema financeiro da habitação, da qual conseguiu honrar pouco mais da metade, graças às altas taxas de juros e à correção monetária do conhecido período inflacionário brasileiro.

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