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Frei Francisco de Jesus Camargo, (1774-1777) – Convento da Penha

Portal Velho do Convento, início do século XX

Sob a direção de Frei Francisco de Jesus Camargo, (1774 — 1777), iniciou-se na Penha, um período de melhoramentos: — reforma do calçamento da ladeira, construção de muros e da capela do Bom Jesus, reconstrução da Casa dos Romeiros, etc. Lê-se, ainda, no portão, à beira mar, a data de 1774, em que foi construído. Já não se encontra, porém, a imagem de São Francisco, no alto. O nicho está vazio. Apresentava a ladeira 785 metros, por 2 de largura; vãos, destinados aos Passos que os religiosos projetavam estabelecer, com as respectivas cruzes, para memorar-se o Caminho da Cruz, que Jesus percorreu. No fim, estava a Capela do Bom Jesus.

No portão, havia, em baixo, em relevo, duas figuras de anjos.

Com a redução de vocações, a Província Franciscana da Imaculada Conceição atravessava uma quadra desanimadora. Embora os superiores envidassem esforços para manter a comunidade na Penha, repercutia ali o estado geral da Ordem. Apesar, porém, dessa crise na vida religiosa, em 1802, instituiu-se no Convento um curso de língua indígena, freqüentado pelos missionários, a fim de que pudessem trabalhar nas capitanias do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. De certo, essa providência devia ter sido tomada, desde o estabelecimento da Ordem no Espírito Santo. Evitaria, talvez, a deliberação absurda firmada pela Câmara da Vila da Vitória que, a 23 de Maio de 1795, proibiu que se falasse a língua geral. Estudando-a, os colonizadores teriam colaborado na confraternização dos nativos com os advindos. Além disso, conservariam uma preciosidade para os estudos indianistas, hoje apreciados e procurados.

Em 1807, Frei Francisco e São Carlos exerceu a Guardiania da Penha. Não é exato que tivesse escrito, ali, o poema “Assunção da Virgem”, composição realizada em 1805, no Convento Bom Jesus da Ilha. Nota-se mesmo que nem uma referência o poema encerra sobre o Espírito Santo e seu famoso monumento histórico, - a Penha.

Abusos que se praticavam, na Gruta de Frei Pedro Palácios conduziram o guardião Frei Mateus de Cristo, a fechá-la, em 1810. Algum tempo depois, fêz-se uma porta de grades.

Em 1818, o Santuário recebeu a visita do grande botânico Augusto de Saint Hilaire. Ali encontrou dez religiosos. No ano seguinte, a guardiania foi confiada a Frei Francisco do Monte Alverne. (23/10/1819 - 20/10/1821).

Ecoou, portanto, naquelas paredes centenárias, a eloquência inconfundível do famoso orador sacro. Da coletânea das suas obras oratórias, destacamos os seguintes trechos do Panegírico de Nossa Senhora da Penha: —

"Não é debalde que nós veneramos a Maria com a denominação de Senhora da Penha; não é em vão que a piedade tem edificado sobre o cume das montanhas estes santuários em que Maria se compraz de ser venerada; era justo que, depois de entornar sobre seus filhos as riquezas de sua proteção, ela consagrasse estes troféus, que levassem ao longe a glória de seu nome, e fossem um testemunho desta bondade, que jamais será destemida. Fazendo pois ver a todas as nações o asilo, em que se devem abrigar da cólera celeste, a Virgem selou com sua augusta mediação, e forçou todas as gerações a proclamar que, verdadeiramente Maria é sua mãe, é sua corredentora. Transportado de tantas maravilhas, eu ousei patentear os tesouros da grandeza de Maria, debaixo da invocação de Senhora da Penha, com que hoje é venerada: ter-me-ei abalançado a muito, pretendendo revelar os mistérios do seu amor; mas, eu direi muito pouco, porque o homem não poderá jamais sondar este abismo de misericórdia.

Monumento de grandeza, e da magnificência de Maria, oh! famosa, oh! célebre Penha, tu és mais eloqüente que os mais sublimes elogios! Tu dás a sentir da maneira mais irrecusável a proteção constante e valiosa que Maria oferece à desventura! ... Tu nos recordas esses padrões colossais elevados sobre as margens do Jordão, a fim de exaltar a glória do Senhor aos olhos da posteridade! quando os nossos netos perguntaram: — Que penha é esta, sobre que se levanta este edifício, onde à porfia se depositam os mais expressivos penhores do reconhecimento? Quid sibi volunt isti lapides. A voz dos séculos responderá: — Foi a gratidão que consagrou a Maria este soberbo troféu para que todas as idades reconhecessem sua proeminência e valia:— Idcirco positi sunt lapides isti in monumentum fi-iiorum Irsael usque im aeternum.

Tantos prodígios, maravilhas tão estupendas não devem merecer à Senhora da Penha o culto e as homenagens consagradas por os povos? Daqui partem estas cadeias que vão domar os furores do Oceano e vencer a raiva dos furacões. Daqui sai este grito de vitória, que afugenta a morte e arranca seus despojos. Aqui destila o bálsamo saudável, que contém a vida e a saúde; aqui ouvem-se palavras misteriosas, que adormecem as dores, encantam nossos pesares, dissipam nossos terrores e tranqüilizam nossos corações. Desgraçados subtraídos às dores e às enfermidades, vítimas escapadas à aflição e aos trabalhos aparecei; e o vosso testamento será mais brilhante do que todos os nossos discursos!...

Sim. oh! Virgem Poderosa, nós desafiamos todos os males e zombamos de todos os acasos, à sombra das palmas que atestam vossos mais belos triunfos. Seguros do vosso amor, nós nos abandonamos às mais lisonjeiras comoções. E que momento para derramardes sobre nós a torrente desses bens sobrenaturais, que desafiam, sem cessar, as mais vivas aclamações! Não são escravos trazidos de terror e susto que imploram de rastos vossa piedade maternal; são vossos próprios filhos que, animados de Fé e entusiasmo, vêm lançar sobre vosso altar o tributo de sua admiração e oferecer vosso altar o tributo de sua admiração e oferecer vosso respeito e as homenagens de que justamente sois credora.

 

Fonte: O Relicário de um povo – O Santuário de Nossa Senhora da Penha, 2ª edição, 1958
Autora: Maria Stella de Novaes
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2017

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