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O Milagre da Seca - Poema de Orminda Escobar Gomes

O Milagre da Seca, 1769 - Artista: Benedito Calixto, 1927

Poema

 

I

FLAGELO

Horrível panorama. A seca devastava

O solo abençoado desta linda terra...

Do plaino e da colina, ao chapadão e à serra

O fulgurante sol, crestando, o castigava.

 

Sem ideal. Não mais o camponês folgava

Nas noites de luar. Pastagens, longas, erra

O gado sequioso... e a soalheira aterra

Matando ou definhando a erva que abrolhava.

 

À gleba desnudada, em fogo, o alvião

Do lavrador não cava; é duro; é vil torrão

Que o sopro das rajadas desgastando vai

 

O arbusto e o cipoal do agente aéreo à ação —

Se enredam, forte, ao cedro-orgulho do sertão —

Por fim, geme o colosso se estorcendo... cai.

 

II

DEVASTAÇÃO

Na vastidão do campo, é tudo transformado.

Secou de todo a fonte; a planta feneceu;

O fado, o marulhoso arroio já perdeu

A força que movia a bolandeira. O eirado

 

Vazio está. O ativo, o sertanejo ousado

Não mais procura agir; apenas recolheu

O que salvou a custo, o que não pereceu

No triste transcorrer do tempo mau... coitado!

 

O rio tão soberbo, o rio majestoso

Que, na campina em flor, corria caudaloso

Tem trechos que o pedestre, aflito, a vau transpõe...

 

O sabiá não canta... e o arvoredo umbroso

Alegre, onde habitava o sonhador ditoso

Raízes ressequidas, tristemente, expõe.

 

III

O INCÊNDIO

Radiação ou chama casual?! Ardia...

No bosque-onde soluça um rio em sua origem

Intenso, enorme incêndio. Assim já se dirigem

Para o alto, as labaredas agitadas. Via

 

O fraco, o sem valor, que inútil lhe seria

Esforços empregar para dominá-lo. Exigem

Os firmes, impassíveis que jamais se afligem

Extenso, largo aceiro e muita calma. Urgia!

 

Convulso, um bambual, constante detonava...

Faíscas arrojando, em derredor. Lutava

O destemido, o herói, para as flamas extinguir.

 

Rompendo a fumarada, o urutu silvava!

E a onça, tão feroz, qual corça se esgueirava...

Sutil... horríveis fauces, a fugir... fugir...

 

IV

CALAMIDADE

Os coruscantes raios do astro-rei batiam

Nas penedias. Esta, à sua ação gretava;

E aquela, a dilatar-se ao máximo, estourava...

Apavorando os tibios que, a gritar, corriam...

 

Só a palmeira esbelta e o cacto, se sentiam

Felizes como a urze. O ambiente estava

Abrasador... cruel; e, quase, asfixiava

Aos que do sol, a pino, as flamas não temiam.

 

A seca que assolava a gleba, primorosa;

E a fome que abatia o povo, rigorosa...

Comovem... e os poderes se dispõem a agir.

 

Ao pobre, o filantropo abriu mão dadivosa...

À Virgem Mãe da Penha a gente piedosa

Fiel, promessas fez para graças lhe pedir.

 

V

ENTUSIASMO

Manhã soberba e linda e clara e radiosa

Bem cedo, pelas ruas, vozeria enorme

Da gente que se esgota e pouco ou nada dorme

Insuportável, quente, a noite; mas ditosa

 

A nova que circula. Comissão que goza

De simpatia e estima agindo está, conforme

Solene aclamação, para que de pronto forme

O povo e acompanhe a Virgem Gloriosa.

 

De Jaburuna, perto, embarcações... eis quando

Suave, mansa brisa, as velas enfunando

Traz doce refrigério aos lassos tripulantes...

 

Em frente ao Forte, em tom festivo, tocam sinos...

Foguetes, pelo espaço, atroam... Cantam hinos

Milhares de fieis, alegres exultantes!

 

VI

EM TERRA

Chegados ao Cais Grande — Praça Oito, agora...

Compacta multidão se comprimia, à espera

Da excelsa Padroeira; — a fidalguia era

Presente, como o clero e as irmandades... Chora

 

De comoção, o velho; o adulto, revigora

A sua crença; a massa, em suma, considera

O que se está passando... tudo o que fizera

O sábio franciscano e as lendas rememora.

 

Com o ritual da igreja, é recebida a Santa,

Moveu-se a procissão... o povo todo canta

E vai para São Francisco. Ecoam os louvores

 

Da mole humana; e, ali... bandeiras desfraldadas,

Folhagens pelo chão, damascos nas sacadas,

Em honra à Mãe do Céu que cura as nossas dores.

 

VII

EM SÃO FRANCISCO

Vieram receber a Virgem no Cruzeiro,

À base da ladeira que ao Convento vai;

Os frades. Quanto ao sol aparentando, sai

Às vezes da penumbra; de outras, todo, inteiro

 

Parece mergulhar na treva, o derradeiro

Adeus do dia é longe... Ainda não se esvai

Inteiramente, a luz que impressiona e atrai

Por seu fulgor, seu brilho. Engalanado o outeiro;

 

Risonho, original. Dali, se descortina

A ilha... O Penedo, junto ao mar, culmina...

No primoroso quadro que a retina encerra.

 

Penetra, já, no templo — a Mãe de Deus. As flores

Em profusão, adornam seu altar... Louvores

Da multidão resoam da planície à serra.

 

VIII

AMEAÇA

Escurecendo está. As nuvens pardacentas

E negras vão cerrando, ao longe, os horizontes...

Prometem converter, os fios d’água, em fontes;

A vasa dos paúes, em ondas lamacentas;

 

O arroio, empobrecido — de águas turvas, lentas —

Em rio que abeirando, enfurecido, os montes,

Arrastaria tudo — as plantas, casas, pontes

Com a força irresistível das fatais tormentas.

 

A massa se comprime; é grande o seu ardor!

Não pensa no perigo... expande o seu fervor

Rezando o Ofício, o Terço ou a Salve Rainha!

 

Sibila o vento, geme o arvoredo... horror!...

O vendaval, porém... se afasta... Com dulçor

O povo, ajoelhado, entoa a Ladainha!...

 

IX

AGUACEIROS

Já lusco-fusco, então. O vento, menos forte

Agora, grossas gotas, vem trazendo a espaços...

Eleva-se o calor... exaurem os mormaços...

Às criaturas dando uma impressão de morte.

 

De novo sopram ventos, rijamente... e o norte

Traz aguaceiros longos... formidáveis... Braços

Se estendem para a Santa agradecendo os traços

De seu poder perante o Salvador. A sorte

 

Do que se humilha, é sempre... sempre compensada

Com o benefício; assim, a gleba torturada...

— Cruel verão que à sede e à fome vai ceifando

 

O homem e a alimária!...— A gleba... está banhada

Pela enxurrada hostil, soberba, arrebatada

Que para o pego e o mar se vai precipitando!

 

X

ENCHENTE

A chuva recrudesce e assombra... derruindo...

Em jorro, lava a encosta pedregosa e nua;

Da gruta um jato sai; na queda, se acentua,

A sua grande força e seu poder. Fulgindo

 

Um iris vê-se, além... Em borbotões, surgindo

Da eventual cascata — a água, após, flutua

Pulverizada... Então, a névoa se insinua,

Gentil e finamente, os alcantis vestindo,

 

Na terra ressequida, as águas vão correndo...

A derribar o arbusto e a ribanceira-enchendo

Os arraiais de horror... Para o rio, furiosas

 

Desde a nascente à foz — cascalhos arrastando

Surpreendem, nos covis, as feras que bramando

Confusas, loucas, fogem — torvo olhar, medrosas...

 

XI

A HERA

Se faz novena. A chuva, intensamente, desce...

Cessando de repente... e... dentro em breve instante

Retorna com vigor ou fraca... ou inconstante...

Assim, dessedentada vendo a gleba, esquece

 

Os dias maus, aquele que vivia em prece...

Será de novo alegre e bela e exuberante!

Exulta a criação! Além, altissonante

O zirro malha e canta o sabiá! Já cresce

 

E brota a trepadeira... A' triste parecia

Não mais poder sugar a seiva que a nutria

Pois enlaçada estava ao pequiá, coitado!

 

Mas, chove... O semimorto recupera alento,

E a hera, prelibando o fim de seu tormento,

Mais fortemente abraça o amigo abençoado.

 

XII

DEDICAÇÃO

O céu toldado está. Não mais os aguaceiros

Há calmaria em torno. A brisa nem sequer

Desfolha, lentamente, um triste mal-me-quer ...

Vapor. Condensações. De longe, vêm romeiros

 

A vadear, sem medo, os tredos atoleiros...

Pisando em espinhais; fazendo o que é mister

Para conseguir rezar aos pés da Virgem. Quer

A peregrinação provar que verdadeiros

 

São — sua crença e amor. Espessa a cerração.

A serra não azula, além... Quanto à visão,

O raio se restringe... Então, de instante a instante,

 

As caravanas chegam, lá do extremo norte;

Assim do centro e sul. Que gente boa e forte!

Fulgura a luz da fé, sincera, em seu semblante.

 

XIII

BONANÇA

Desfaz-se a cerração em chuvas copiosas;

Gerais se vão tornar. As terras desoladas

— Charnecas, sapezais, piçarras — requeimadas

Por soalheiras grandes, rudes, perigosas...

 

E expostas aos tufões... ficaram jubilosas

Pois sendo de umidade, a fundo, penetradas

Vão recobrar alento, e vão ser bafejadas

Por brandas, por subtis aragens bonançosas.

 

Colinas, várzeas, prados, campos e devesas

Irão reverdecer! Medonhas correntezas,

O solo revolvendo e o húmus arrastando...

 

Vão tudo transformar. A Santa intercedeu

Perante o Bom Jesus que graças concedeu

Ao povo prosternado — Sua Mãe honrando!

 

XIV

REVIVESCENCIA

Da aurora, o rosicler; da estrela d'alva, o brilho;

Do belo e fulvo sol, o espectro resplendente;

Do infinito espaço, o azul puro e nitente;

Da nuvem que além corre adelgaçada, o trilho;

 

Da brisa, o ciciar, da rosa e do junquilho,

A cor; do meteoro, a luz opalescente...

E tudo esplendoroso! E a ação revivescente

Se produziu... oh! Mãe! porque foste a Teu Filho!

 

O passaredo vai, nas frondes, gorjeando

E vão, os colibris, na veiga esvoaçando...

Enquanto a vida é doce e a alegria intensa!

 

As flores, na campina, os ares perfumando;

E a rica natureza as galas pompeando...

Confirmam de Maria o amor e a força imensa!

 

XV

HOMENAGEM

Repleta a linda vila. O povo do sertão

Da praia, da montanha e do vargedo vinha

À Virgem Mãe trazer ofertas. Ela tinha

De bênçãos cumulado nossa terra, então.

 

Em tudo impera a crença; em tudo, a gratidão!

Aplausos, ovações, louvores!... Se adivinha

Que n'alma, a criatura, confiança aninha

Ao suplicar com fé, pureza e contrição.

 

Alegremente, enchendo os ares bimbalhavam

Os sinos; foguetões e salvas estouravam...

Ao ressoar na igreja, com efusão, o “Glória”!

 

Voltava já para Penha — a Santa — meio às rosas,

Orquídeas, madressilvas e cecéns mimosas

Do fértil, portentoso, solo teu — Vitória!

 

XVI

RETORNO

Tocante cerimônia. As criancinhas riam;

Tomados de emoção, os jovens suspiravam;

E os velhos, a tremer, chorando soluçavam...

Com o olhar seguindo o andor. Os freis que conduziam

 

A Virgem Mãe de Deus, curvados, já haviam

Chegado no Cruzeiro. Aí, os aguardavam

Fidalgos; bem assim, autoridades. Davam

Sinais de devoção, fervente, todos. Iam

 

Cantando a Ladainha; e, assim, a gente em massa

Oh! que união de crença! Oh! que sublime graça

Tu concedeste, Mãe?! Que estranha vibração

 

Sentia a alma cristã, ao cultuar a pura

Imagem da mais nobre e excelsa criatura

Formada pelo Eterno Autor da Criação!

 

XVII

VOGANDO

Foi conduzido o andor para o barco principal.

Por uma infinidade de galeras, lanchas,

Sumacas, escaleres, bergantins e pranchas

O mar coalhado está. A face de cristal

 

Sem jaça — então, reflete a bela, a natural

Riqueza do cenário... e o céu, azul sem manchas

De nuvens ouro ou rosa... Oh! brisa tu desmanchas

A vaga em branca espuma, à margem do areal

 

Em honra à Mãe do Céu! Bendita e carinhosa

Agitas da palmeira o leque e a suspirosa

Ramagem densa e linda do arvoredo em flor!

 

Oh! sabiá ditoso que na mata voas...

Abençoado sejas! pois, cantando loas,

À virgem agradeces a clemência, o amor!

 

XVIII

GLORIFICAÇÃO

Demonstrações de fé, saudade, extremo amor,

Respeito, piedade, eterna gratidão...

Fazia o povo à Santa — enquanto a procissão

Singrava o mar sereno. Assim, todo o fervor.

 

Das almas simples, puras, se expandia... A dor

De ver partir Aquela em cuja proteção

Se confiou, tenaz, de todo coração...

Se transformava em prece, em singular louvor!

 

Entrando na enseada, os sinos repicaram

No perfumado ambiente, as salvas espocaram

Quando ascendia, à Penha, a Virgem... Ante o andor

 

Clamava o povo, em pranto: “Ao Filho Teu Jesus!

Implora, nos conceda — a chuva... o sol... a luz!

E... “Salva, nossa terra! Oh! Deus Consolador!...”

 

Fonte: Lendas e Milagres no Estado do Espírito Santo (Poesias 1551-1950) – Prêmio Cidade da Vitória, 1951

Autora: Orminda Escobar Gomes

Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2021

Convento da Penha

A Origem do Culto de Nossa Senhora da Penha

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Do livro O RELICÁRIO DE UM POVO – Santuário de Nossa Senhora da Penha (1958, 2ª Edição), da autora Maria Stella de Novaes

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