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Reserva de Comboios continua sendo loteada

Esqueleto de baleia Jubarte, localizado no Centro Ecológico de Regência, criando consciência ecológica - julho/2018

A Reserva Biológica de Comboios continua sendo loteada, e esta denúncia consta do relatório que está sendo datilografado pelo Centro Excursionista  Espírito-santense, e que será entregue ao Instituto Estadual de Florestas, a quem cabe a vigilância da área.

Na viagem que cinco membros do Centro fizeram à região, no último fim de semana, foram abordados no ônibus em que viajavam, por uma moradora do povoado de Regência, na foz do Rio Doce, que lhes ofereceu terrenos a Cr$ 3 mil, explicando que o loteamento fazia parte de um plano da prefeitura de Linhares para baratear a aquisição de casa própria.

- Pelo que consta dos mapas que recebemos - diz Hilário Pasolini Júnior, presidente do Centro Regência ainda está dentro da reserva. A afirmação de Hilário é comprovada por outros mapas do Espírito Santo, impressos e distribuídos por órgãos estaduais, e que situam a povoação dentro dos limites da reserva.

CAMINHADA

Durante três dias, no último fim de semana, cinco associados do centro fizeram uma caminhada de 30 quilômetros, cobrindo quase toda a estrada - o "areão" como é conhecida pelos moradores - que corta a reserva no sentido sul-norte, que foi o seguido pelos excursionistas.

Após uma troca de correspondência com o Instituto Estadual de Florestas, eles obtiveram autorização para percorrer a reserva, com a recomendação do IEF ao seu pessoal na área, para que lhes fosse prestada toda a ajuda possível. O instituto também se dispôs a acolher o relatório que o grupo fizesse, como informação reconhecidamente válida para ajudar a ação do órgão na área.

Das 300 famílias moradoras da reserva, a maioria fica em Regência e se dedica exclusivamente à pesca. Mas ao longo de 30 quilômetros que os excursionistas percorreram, verificaram a presença de pelo menos 60 famílias, que vivem da produção de mandioca. Cada uma delas tem um "quitungo" - fábrica rudimentar de farinha, movida a braço, tração animal ou água.

A farinha é vendida ao único criador de gado da área, que possui 30 cabeças de gado na maior "clareira" aberta na reserva, e que revende a produção nos mercada de Aracruz e Linhares. O solo arenoso ainda produz melancias, abóboras e uns poucos legumes. A maioria dessas famílias, pelo menos nas pessoas de seus antepassados, lá habitava a reserva, que foi criada em 1953. De acordo com o levantamento aerofotogramétrico feito pela Secretaria de Agricultura, 950 hectares da reserva lá foram desmatados. Isto corresponde a quase um sexto de sua área total de 6 mil hectares.

CERCA

O grupo viu amontoados alguns milhares de mourões que vão sustentar a cerca de 25 mil metros, feita de arame farpado, com que o IEF pensa proteger a área. O trabalho custará ao estado Cr$ 650 mil, sem contar os Cr$ 90 mil das três guaritas que já estão construídas em Barra do Riacho, Regência, e na saída da estrada que vai dar à BR-101. O IEF colocou na reserva um engenheiro florestal, um técnico, agrícola e quatro guardas treinados por um oficial militar. Seu equipamento de fiscalização serão um veículo, montarias e armas.

Em Regência, os participantes da excursão tomaram conhecimento de que o pessoal do IEF já convocou os moradores para uma reunião em Regência, onde cada um deverá declarar as benfeitorias que fez na reserva. Os habitantes estão começando agora a ouvir os rumores de que alguma coisa vai mudar. Eles dizem apenas que no mês passado foram visitados por "soldados'. - que pela descrição que fazem, são os guardas da reserva - que proibiram a derrubada e até mesmo o plantio de qualquer área de mata. Segundo os moradores, eles só poderão colher o que já plantaram. Os guardas porém explicam que a recomendação não foi dada em termos tão drásticos assim.

Os excursionistas não puderam avaliar os estragos feitos pela derrubada de matas para a prática da agricultura de subsistência, porque, segundo Hilário Pasolini, uma observação rápida não permite distinguir o que é mata baixa de restinga, e o que é capoeirão que cresceu no lugar da mata derrubada. Ele acredita que o estrago da exploração industrial feita ilegalmente na reserva em poucos anos é bem maior do que o dos caboclos agricultores que habitam a região há mais de um século.

PERMANÊNCIA

— A mata já está no chão - diz Hilário. "Não sei se a transferência do pessoal alteraria muito a situação da reserva. A mata derrubada, de qualquer maneira. levará muitos e muitos anos para se recompor. Não sabemos o que irá acontecer com a moradores da reserva, mas provavelmente eles são os que menos a danificam".

A presença de uma draga trabalhando próxima à reserva foi constatada pelos excursionistas. No entanto, para trabalhar no Pântano em que ela estava, ela atravessou a reserva, onde abriu uma clareira para passar e onde deixou dois tonéis de combustível. Essa passagem foi ilegal, segundo o guarda, que disse que não lhe foi pedido consentimento.

Outra presença estranha foi denunciada pelos próprios moradores: um barco "grande", dizem eles, que, depois que sai, sempre deixa uma quantidade enorme de peixe miúdo morto na praia. E eles, os moradores, ao escutarem o "ronco", correm à praia onde recolhem sacos de peixe. "E a reserva"? pergunta Hilário. "Termina onde começa a água? E a tartaruga gigante que desova na areia da reserva, não estará sendo extinta por esses barcos"?

Ele propõe que de agora em diante, se organizem visitas em grupos às áreas de reserva, por gente que tenha espírito conservacionista. "Com aval técnico da repartição púbica competente ou não, esses grupos fariam relatórios de constatação, e seria feita uma comparação entre os relatórios. Se as diferenças fossem gritantes indicando devastação, seria encaminhado o resultado às autoridades, que contariam assim com a vigilância do cidadão".

O IEF, por sua vez, pretende resguardar o que resta da reserva, sem criar conflitos. A ideia é de cercar o que resta de mata, mas manter a área não cercada para que os moradores da reserva venham habitar na periferia, onde poderão continuar na prática da agricultura. Por enquanto está proibido o desmatamento, mas o Instituto mandará para a área, agentes sociais para um levantamento da situação das famílias, antes de ser tomada qualquer medida visando à sua transferência para fora da área cercada.

 

Fonte: A Tribuna, Vitória – ES, 07/04/1978
Arquivo: Instituto Jones dos Santos Neves
Compilação: Walter de Aguiar Filho, julho/2018

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