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Ano de 1564 - Por Basílio Daemon

Índio Arariboia

1564. Toma posse, neste ano, da donataria do Espírito Santo, Vasco Fernandes Coutinho, filho natural do primeiro donatário com uma Ana Vaz,(84) que não se sabe ao certo se moradora nesta capitania, visto que o mesmo Vasco Coutinho Filho parece não ter tido residência aqui, pois do contrário tomaria logo posse da donataria pelo direito que lhe assistia e que fora reconhecido por Mem de Sá na Portaria de 10 de outubro de 1561,(85) quando confirmou a nomeação de Belchior de Azeredo Coutinho Velho para capitão-mor da capitania. Este continuou como provedor da Fazenda Real,(86) e de defuntos e ausentes, que lhe foi depois confirmado por D. Sebastião ainda sob a regência de D. Catarina, em carta régia de 1565. Vasco Fernandes Coutinho Filho era casado com D. Luíza Grinalda, natural de Portugal e filha de Pedro Álvares Correia e de D. Catarina Grinalda, o que ainda nos convence que este donatário residia naquele reino. Assumindo a direção da capitania, Vasco Coutinho Filho dá novo impulso a ela, provendo-a do necessário, desenvolvendo a lavoura, concedendo terras a quem as queria, confirmando as sesmarias concedidas por seu pai nas pessoas dos descendentes dos primeiros concessionários, já falecidos, mandando que se construíssem novos engenhos, se aumentasse a criação de gado, se plantasse em grande escala a cana, o algodão, o anil e cereais, fazendo por chamar à ordem os índios que se achavam dispersos, empregando-os no cultivo das terras e fazendo que fossem construídos edifícios. Muito concorreu e auxiliou nesse desideratum o padre Brás Lourenço que por sua parte secundava os esforços do donatário, já desenvolvendo a catequese, já animando os povoadores e chamando-os aos seus deveres.(87) Assim, viu-se em poucos anos prosperar toda a capitania e a ela concorrerem imigrantes de diversas partes, pela fama da uberdade das terras e por conterem elas muitos mananciais que com encômios eram descritos pelos viajantes, moradores e mais que tudo relatado pelos padres da Companhia, como se vê em suas cartas e relatórios, a capitania chegou pois a ser encarada como uma das primeiras do Brasil.

Idem. Tendo partido da Bahia neste ano, com escalas por diversos portos, a obter reforços o capitão Estácio de Sá, sobrinho do governador Mem de Sá, o qual no princípio do ano antecedente chegara de Lisboa com dois galeões sob seu comando, com munições e tropa a fim de coadjuvar Mem de Sá a repelir do Rio de Janeiro os franceses que naquela capitania continuavam a estar de posse, e mais reforçados ainda com contingentes obtidos depois da ida de Villegaignon, aporta Estácio de Sá a esta capitania a tomar reforços como tinha feito em outras; tendo-se aqui demorado alguns dias obtém pelos esforços de Vasco Coutinho e do ouvidor Brás Fragoso, que tendo chegado a São Salvador, vindo de Porto Seguro fora mandado pelo governador Mem de Sá a acompanhar seu sobrinho Estácio de Sá a esta capitania e à de São Vicente a fim de angariar homens de guerra.(88) Com efeito, a instâncias do dito ouvidor decide-se o cacique Arariboia a acompanhá-lo com duzentos índios flecheiros, e assim munido de gente, mantimentos e apetrechos partiu para o Rio de Janeiro, onde logo deu-se combate tomando-se uma nau dos franceses, tendo Arariboia muito se distinguido. Temos aqui de fazer um reparo, e este é o confundirem os nossos historiadores a Arariboia e Tebiriçá, dois chefes de tribos diversas, sendo Arariboia morador na capitania do Espírito Santo e Tebiriçá na de São Vicente; a confusão vem de ambos serem batizados com o nome de Martim Afonso, embora um tivesse por sobrenome Souza e outro Melo.(89) Arariboia foi um bravo auxiliar durante quatro anos nas campanhas contra os franceses e tamoios, chegando a apresentar-se em campo com quatro mil arcos, e muito temido por sua coragem e valentia. Foi recompensado de seus serviços por el-rei de Portugal, que o nomeou cavalheiro de Cristo, com mais a tença de 12$000, e doação de uma sesmaria de légua de terras na hoje cidade de Niterói, no lugar ainda hoje existente com o nome de São Lourenço, a pouco mais de três quilômetros do mar, onde Arariboia fundou uma aldeia composta de sua família, parentes e companheiros, a qual muito prosperou e onde ainda hoje se encontram descendentes. Ainda no ano de 1587 existia naquela aldeia de São Lourenço este célebre índio, já bastante velho, mas sempre respeitado e obedecido.

 

Notas

 

84 Vasconcelos, Ensaio, p. 19.

85 “Enfim, o mandado de dezesseis de outubro, reconhecendo Vasco Coutinho (filho) como sucessor do primeiro donatário, vem esclarecer que, àquela data, seus filhos legítimos já haviam falecido.” [Oliveira, HEES, p. 105-6

86 “Em 1564 já não era capitão-mor, e somente provedor da fazenda” [Vasconcelos, Ensaio, p. 19]

87 “...assim como a extensão do trabalho missionário pela capitania, multiplicando residências, incentivando o trabalho agrícola, pondo em prática novos métodos de cultivo da terra, nas diversas fazendas por ele instaladas.” [Bittencourt, Frei Pedro, p. 33-4]

88 Wetzel, Herbert Ewaldo, Mem de Sá, terceiro governador geral (1557-1572), p. 100, apud Brandão, Capitania real, p. 7.

89 “...ajudados pelo célebre índio Tebiriçá (depois do batismo, Martim Afonso)...” [Malheiro, Índice cronológico, 1564]; “...Auxiliado pelo célebre Arariboia (ou Martim Afonso de Souza, que não devemos confundir com Tebiriçá). [Malheiro, Índice cronológico, 1568]

 

Nota: 1ª edição do livro foi publicada em 1879
Fonte: Província do Espírito Santo - 2ª edição, SECULT/2010
Autor: Basílio Carvalho Daemon
Compilação: Walter de Aguiar Filho, outubro/2019

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