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Literatura Capixaba no Final do século XIX

Capa do livro de Almeida Cousin

Assim como a primeira metade do século teve no pe. Marcelino Duarte o seu símbolo, o final do século gerou a figura de José de Mello Carvalho Moniz Freire (1861-1918), um positivista, republicano, jornalista, combatente e estudioso do direito, da política, das questões econômicas e sociais. Não foi um literato, mas sobretudo um estimulador do progresso intelectual e material, o criador do espírito de modernização no Espírito Santo.

Durante os últimos anos do séc. XIX, a literatura capixaba oscila entre as primeiras tentativas parnasianas, Manoel J. Rodrigues com Fugitivas, 1883 e Manhãs de estio, 1886, mas com uma forte influência de religiosidade e subjetivismo românticos como as de Virgílio Vidigal (1886-1907); Ulisses Sarmento (1875-1923) foi, provavelmente, o primeiro poeta capixaba visivelmente influenciado por Olavo Bilac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira a partir da publicação de Clâmides, 1894, Torturas do ideal, 1900, Contemplações, 1902 e A voz da natureza, 1923. Seguidor das correntes realistas/ naturalistas do fim do século passado foi Colatino Barroso (1873-1931), com seus contos publicados em Anátemas, 1895, Jerusa, poema em prosa, 1892, A lenda dos guizos divinos, 1917.

Graciano dos Santos Neves (1868-1922), médico, político, foi o iniciador da tradição capixaba de usar a ironia como recurso literário com o seu A doutrina do engrossamento, tratado da bajulação, publicado em 1901 e reeditado pela Ed. Artenova – RJ, em 1978. O maior representante capixaba da corrente irônica foi Mendes Fradique, pseudônimo do médico José Madeira de Freitas (1893-1944), cuja obra, iniciada por Hypocratéa, 1926, vai até Pantomimas, 1930, e virou tema de dissertação de mestrado, no Rio de janeiro. Mendes Fradique consagrou o “método confuso”, com sua Gramática portuguesa pelo método confuso, 1928 e História do Brasil pelo método confuso, 1927. Madeira de Freitas chega ao Rio, em 1910, um dos anos de ouro do cinema brasileiro. Também proliferavam os automóveis, os telefones, fonógrafos e gramofones. Começava a era da modernização e a literatura não ficou fora desse processo. Isso no Rio de Janeiro, capital da República, para onde iam os jovens capixabas de família rica para estudar.

No Espírito Santo, dois acontecimentos marcaram os primeiros anos do século: a fundação da Academia Espírito-santense de Letras em 1921, e o quinzenário Vida Capichaba (1923-1955). A AESL, fundada em 1921, pelos ideais do advogado Alarico de Freitas e do jornalista Sezefredo Garcia de Resende, logo recebeu a adesão do professor Elpídio Pimentel, do bispo Dom Benedito Paulo A.de Souza e do jornalista Thiers Velloso, sua primeira diretoria. Inicialmente criada com 20 cadeiras, só preenchidas integralmente em 1923, as quais passaram para trinta, em 1937 e, em 1939, para quarenta, e só foram completadas em 1941, quando se comemoraram os 20 anos da AESL.

A vida literária na primeira metade do século XX, girava em torno dos cursos e conferências patrocinados pelos intelectuais ou das agremiações existentes: AESL, IHGES (fundado em 1916), Academia Espírito-santense dos Novos (1934), Grêmio Literário Rui Barbosa (1932-1938), a Sociedade Espírito-santense de Letras, Arcádia Espírito-santense (1943). O Espírito Santo descobre as Academias 200 anos depois dos baianos, cariocas e mineiros, Escritores atuantes dessa época foram: Augusto E. E. Lins, Abílio de Carvalho, Antônio Pinheiro, Alvimar Silva, Mauro de A. Braga, Mário de S. Nunes, Carlos T. de Campos, Nicanor Paiva e Lúcia Castellani, além do poeta e historiador Almeida Cousin.

O quinzenário Vida Capichaba, 1923-1955, inicialmente sob a responsabilidade de Manoel de Teixeira Leite, “ajudou a moldar o talento dos escritores, incentivados pela visão de seus trabalhos em letras de forma, e pela discussão, nas rodas de amigos, das idéias expressas num artigo ou noutro”, segundo J. A. Carvalho. Diante da dificuldade de publicação apontada por Affonso Cláudio na obra antes citada, os escritores capixabas geralmente só conseguiram publicar seus trabalhos em jornais. A Vida Capichaba foi o principal deles.

Mesquita Neto, pseudônimo de Otávio José de Mendonça (1901-1975), diretor do jornal A Gazeta, poeta, cronista, contista e romancista, foi um dos principais incentivadores das produções literárias locais, abrindo as páginas das edições domingueiras com os trabalhos dos escritores capixabas.

Nessa época, surgem as primeiras mulheres capixabas a publicar livros. Maria Antonieta Tatagiba (1895-1928) com Frauta Agreste, 1927 e Haydée Nicolussi (1905-1970), contista premiada, jornalista militante e tradutora. Em 1943, publica Festa na sombra, poemas. Marly de Oliveira (1935), atual companheira de João Cabral de Neto, inicia a sua produção poética com Cerco da primavera, em 1957, seguida de Explicação de narciso, 1960; A suave pantera, 1962; A vida natural/O sangue no veio, 1967; Contato, 1975; Invocação de Orfeu, 1978; Aliança, 1978; A força da paixão, A incerteza das coisas, 1984.

Elpídio Pimentel (1894-1971) foi crítico literário, Noções de Literatura, 1918, e autor da página de abertura de Vida Capichaba, além de escritor de obras didáticas: Postilas pedagógicas, 1923; Quando o Penedo falava, 1927.

Em Cachoeiro de Itapemirim, surgem grandes escritores capixabas: benjamim Silva (1886-1954) com um único livro, Escada da vida, 1938, poemas; Newton Braga (1911-1962), jornalista e poeta, publicou Lirismo Perdido, 1945; Cidade do interior, 1959 e Poesia e prosa, 1962, reeditado em 1993. Rubem Braga é o mais famoso escritor capixaba, com suas crônicas publicadas em vários livros, sendo o primeiro, O Conde e o passarinho, 1936, até Crônicas do Espírito Santo, 1984, reeditadas pelo jornal A Gazeta, no projeto “Nosso Livro”, em 1994. Evandro Moreira (1939) fundador da Academia Cachoeirense de Letras, em 1954, e autor de várias obras em verso e prosa. Ormando Moraes (1915) é contista, cronista e historiador.

Apesar de o Modernismo ter sido implantado no Brasil, em 1922, com a Semana de Arte Moderna, em São Paulo, ele custou a chegar ao Espírito Santo. O que predominava aqui eram os neo-parnasianos e os neo-simbolistas. Narciso Araújo (1877-1944) é eleito “Príncipe dos Poetas capixabas”, em 1941, com o livro Poesias, 1942, ficando, em segundo lugar, Ciro Vieira da Cunha (1897-1971), com Alguma poesia, 1942. No segundo concurso, realizado em 1947, coube a Geraldo Costa Alves (1924-1973), o primeiro prêmio, e a Elmo Elton (1925-1990), o segundo. Pela primeira vez foram escolhidas as melhores poetisas do Espírito Santo, sendo premiadas: Virgínia G. Tamanini (1897-1990), Maria José Albuquerque de Oliveira e Arlete Cypreste de Cypreste (1920). Virgínia Tamanini publicou A voz do coração, poemas, 1942; O mesmo amor nos nossos corações, 1949. Em 1964, publica Karina, romance de grande sucesso junto ao público capixaba, e Estradas do homem, romance, 1977.

Neo-românticos, neo-simbolistas ou neo-parnasianos foram os poetas capixabas até os anos 50. Audifax Amorim foi o primeiro deles a usar ideogramas, fazer poemas concretos, hai-kais e versos livres. Sua obra foi estudada pelo professor José Augusto Carvalho e publicada pela FCAA-UFES.

Os escritores capixabas só conseguiram algum destaque nacional quando saíram do Espírito Santo. Isso aconteceu com Gonçalo S. da França, no século XVII; Pe. Marcelino Duarte e tantos outros no século XIX; e, sobretudo, no século XX com a difusão da mídia impressa e imagética, Rubem e Newton Braga, Almeida Cousin, Geir Campos e Marly de Oliveira. José Coelho de Almeida Cousin (1897-1992) e Geir Nuffer Campos (1924) e Clóves Ramalhete (1915) são autores de várias obras em prosa e verso, vivendo e publicando no Rio de Janeiro.

Eugênio Lindemberg Sette (1918-1900), Renato José C. Pacheco (1928), Cristiano Ferreira Fraga (1892-1928), Guilherme Santos Neves (1906-1989), Adelpho Poli Monjardim (1903) são escritores de uma mesma geração que escrevem crônicas, Praça Oito, 1953; poemas, Poemas traduzidos, 1952 e Sinfonias das ruas de Vitória, 1944; romances: A oferta e o altar, 1964; Reino não conquistado, 1980 e Fuga de Canaã, 1981; memórias: Lembranças, 1978; estudos do folclore: Nau Catarineta, 1949; Cancioneiro capixaba de trovas populares, 1949; História popular do Convento da Penha, 1958, Folclore brasileiro – Espírito Santo, 1978 e o último deles, o mais prolífico escritor capixaba, com dezenas de contos, ensaios romances e novelas. Duas romancistas podem se enquadradas nessa geração de transição para a modernidade, Neida Lúcia Cunha Moraes (1929) e Margarida Serra Pimentel (1936). Ambas publicaram alguns romances, enfatizando a prosa neo-realista e regionalista.

 

Fonte: A Literatura do Espírito Santo uma marginalidade periférica, 1996
Autor: Francisco Aurélio Ribeiro
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2012 



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