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Professor Alberto - Por Álvaro José Silva

Professor Alberto Stange Júnior

Ele entrou em silêncio na sala de jantar e parou diante da mesa onde estava o caixão. Ficou alguns instantes olhando para a face do morto sem dizer nada. Segundo quem via, parecia rezar. Depois olhou em torno procurando pela viúva e perguntou onde ela estava. Apontaram para o quarto pois era lá que Almerinda Villela dos Santos se encontrava deitada na cama do casal e sendo consolada por alguns parentes e amigos.

Foi para lá depois de perguntar se poderia ingressar naquele recinto. Andou devagar e seu semblante demonstrava pesar. Parou ao lado da porta, sem ingressar totalmente no lugar e foi notado por Almerinda que, alertada por pessoas próximas, dirigiu o olhar para ele. Então o visitante fez uma longa mesura com a cabeça em sinal de respeito. A viúva respondeu também por gesto e viu quando o homem saiu devagar.

O visitante ainda cumprimentou algumas pessoas que se dirigiram a ele na saída da casa de número 23 da Rua Francisco Araújo, na Cidade Alta. Depois caminhou descendo a ladeira, ultrapassando a escadaria que leva à Rua General Osório e sumindo próximo do viaduto da Rua Caramuru. Alberto Stange Júnior não havia apenas cumprido uma tarefa protocolar. Ele tinha verdadeiramente, emocionado, se despedido do imigrante português José Maria dos Santos, uma pessoa que conhecia de longa data.

E botemos longa nisso!

Muito antes daquele dia 10 de abril de 1974 ele havia conhecido José Maria como diretor recém-empossado do Colégio Americano Batista de Vitória. Era jovem. E o funcionário público pai de cinco filhos tinha sido enviado para falar com ele pela secretaria do educandário depois de dizer que teria de tirar seus filhos de lá. Não tinha dinheiro para pagar as mensalidades. Professor Alberto, lá pelos idos dos anos 1937/1938, ouviu tudo em silêncio. Depois pegou o velho português delicadamente pelo braço, levou-o de volta à secretaria e tesouraria e disse:

- O senhor José Maria paga quando puder.

Os filhos do fiscal alfandegário estudaram no Americano até terminarem o ginásio. E o pai nem sempre conseguiu quitar todos os “boletos” ao final dos anos. Quando isso acontecia, segundo ele, o Professor Alberto abonava o que havia restado, zerava a dívida para o ano próximo e era vida que seguia! Como isso acontecia na contabilidade, não fazemos ideia.

Conheci o velho professor bem antes do ano de 1974, mais precisamente dez anos antes, quando vim estudar em Vitória e fui matriculado no Colégio Americano por meus pais. Eu então zanzava sem parar entre Vitória e São Paulo. Meus avós continuavam morando no mesmo lugar e tinham mantido a amizade com o diretor do educandário. Em mais de uma oportunidade vi Alberto Stange Júnior conversando com José Maria na varanda da casa deste. E tomando um café gentilmente servido por dona Almerinda, sempre muito prestativa.

Naquele meu primeiro ano de 1964, os tempos eram politicamente nublados. Em meados de março, quando as aulas haviam recomeçado fazia pouco tempo, vivia-se de incerteza em incerteza. Para um menino que completaria 14 anos em abril, tudo era incerto. Restava ouvir os adultos para se inteirar dos fatos. Mas era sensato ouvir os adultos?

No dia 1º de abril, o professor Alberto chamou todos os alunos no pátio interno da escola. Onde se ficava na hora do “recreio”. Explicou que o Brasil passava por uma grande crise interna, o presidente havia sido deposto, um outro governo tinha assumido e deveríamos ir todos para casa por uma questão de prudência. As aulas estavam suspensas sem prazo para voltarem. Ninguém deveria ficar na rua. Também por prudência.

Como meu avô não tinha ido me pegar, andei o trecho curto até em casa devagar. Vi carros militares passando, outros da Polícia e encontrei minha avó lá pelo meio do caminho, pois ela corria para me pegar e levar para casa. E levou. Lá eu fiquei o resto do dia, da noite e do dia seguinte. Todos ouviam os noticiários possíveis, conferiam as informações naquele Brasil sem internet, com televisão engatinhando e jornais com informações defasadas ou já controladas. Meu avô explicou a situação brevemente: “Os comunistas foram expulsos do Brasil!” Era, naquele dia, um salazarista feliz! E que não viveria para ver o final de seu regime político em Portugal pois morreria apenas 15 dias antes da Revolução dos Cravos.

Três anos mais tarde, em 1967, quando eu voltei a estudar em Vitória mais uma vez fui chamado a uma reunião, agora no auditório da escola. Dessa vez para ouvir o professor Alberto dizer que estava passando o comando do Americano para outro diretor, o senhor Nelson Rangel. Pronunciamento curto e seguido por um ir embora definitivo. Havia terminado o tempo dele como diretor de colégio e saiu de lá cabisbaixo. Visivelmente contrariado.

Voltei para São Paulo em 1968 e retornei a Vitória no início de 1969, depois de saber que, mesmo com o AI-5, os comunistas não haviam sido expulsos do Brasil, como se acreditava cinco anos antes, sobretudo no dia dos desfiles de blindados pelas cidades do País. Como Vitória.

Somente algum tempo depois, quando comecei a trabalhar no jornal A Gazeta, já em fins de 1971, voltaria a estar com ele. Dessa feita na sala do diretor de redação da empresa, General Darcy Pacheco de Queiroz. Entrei para falar sobre alguma coisa relativa à edição do dia seguinte, fiz uma rápida mesura para o visitante e saí de lá. Então meu foco era unicamente jornalismo e não passava pela minha cabeça um dia vir a ser escritor. Aquela foi a última vez que vi o professor Alberto com vida. Somente muitos anos depois, entrei para a AEL e passei a conviver com a memória dos imortais. Esse que era tão importante para meu avô, alguém que permitiu à minha mãe estudar, foi um homem ao qual jamais fui apresentado formalmente e com quem nunca troquei sequer um “dedo” de prosa.

Ele nasceu em Santa Leopoldina em 1910, teve vários cargos de destaque no Espírito Santo, também foi professor da Universidade Federal do Espírito Santo, por sinal emérito. Da mesma forma, lecionou na Escola Normal D. Pedro II, foi presidente do Instituto Histórico e Geográfico do ES, secretário de Estado da Educação e o primeiro deputado estadual evangélico capixaba, além de ter presidido a Assembleia Legislativa.

Maçom, foi venerável da Loja União e Progresso e autor de obras hoje pouco comentadas como “O ciclo cósmico”, “Um sonho”, “Montanhas de Vitória” e “Folclore na Antropologia”. Paraninfo de diversas turmas acadêmicas, o velho professor também fez discursos e teses. Quando morreu, em 19 de agosto de 1992, foi sucedido pelo também professor Francisco Aurélio Ribeiro que, como ele, presidiu a instituição, mas por longo tempo.

No ano do centenário da AEL, quero lembrá-lo por seu vínculo de amizade e ajuda à minha família. Afinal, com uma esposa “do lar”, o fiscal alfandegário José Maria dos Santos enfrentava mesmo grandes dificuldades para criar cinco filhos e, ao mesmo tempo, cumprir as obrigações de financiamento da casa, o primeiro da história da Caixa Jerônimo Monteiro. “As crianças”, como ele dizia, teriam tido que terminar seus estudos em outro lugar que não o Colégio Americano, não fosse a bondade de Alberto.

Meu primeiro vínculo com a Academia deu-se anos depois quando acompanhei um pouco de perto a luta do também jornalista José Luiz Holzmeister para ingressar em nossa instituição. Conseguiu e, antes da eleição, eu pude vê-lo em várias ocasiões na sala do general Darcy, um tanto afobado, falando sobre as idas e vindas da luta pelos votos dos imortais. Novamente não tinha como imaginar que mais tarde, ambos já tornados saudade, eu entraria na AEL, ironicamente convidado a concorrer pelo professor Francisco Aurelio Ribeiro. Logo o sucessor de Alberto Stange Júnior...

Por isso, num dos dias em que o ex-diretor do Americano tomou café na varanda da frente da casa da Rua Francisco Araújo e papeou longamente com José Maria, deixou o local sendo homenageado. Meu avô, que havia se esquecido de me apresentar a ele, mesmo depois deste ter cruzado minha vida duas vezes no Americano, olhou-me meio emocionado enquanto acompanhava a saída do amigo e disse, quando o professor já ia embora:

- Devo muito a esse homem!

 

Fonte: Revista da Academia Espírito-santense de Letras – V.26, p16, 2021
Autor: Álvaro José Silva - Jornalista Pertence à Cadeira 14 da AEL
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2022

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