Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

A Imagem de Nossa Senhora da Penha

Nossa Senhora da Penha na Romaria dos Homens em 11/04/15, saída da Catedral de Vitória

A imagem de Nossa Senhora da Penha, venerada no Estado do Espírito Santo, desde 1570, mede 76 centímetros de altura e conserva toda a perfeição da sua cor primitiva. Difunde uma expressão indefinível de ternura e majestade. Confirma o relato de Gomes Neto: — Parece atrair o visitante, em qualquer ponto da capela, como se percorresse, com o olhar, todo recinto. Reproduzia, a princípio, as minúcias da imagem descoberta na Penha de França: — o Menino Jesus, no braço esquerdo, a cabeça coberta somente pelo manto, o vestuário, a mão direita em posição de bênção, etc. Atualmente, porém, a mão está presa ao tronco e a cabeça tem cabeleira, por motivos explicados noutros capítulos.

Não se tem notícia do artista que modelou a imagem do Menino Jesus, os braços e a cabeça da Virgem. Nem a época desse trabalho. Já vimos atrás que o tronco foi talhado, em madeira do Monte, pelo próprio Frei Pedro Palácios. Trata-se, contudo uma obra prima, ponto em que diverge daquela e se justifica pela diferença da época do entalhe e conseqüente avanço da arte religiosa.

Conforme registramos, noutra parte deste livro, as crônicas do Santuário da Penha, em Salamanca, não elucidam como foram parar, na gruta, a imagem da Virgem Maria e outras dentre as quais um Cristo Crucificado todas rústicas e imperfeitas. Existem apenas suposições baseadas na História.

De acordo com as referências da donzela de Sequeros, a imagem, da Espanha, se encontrava na gruta da Serra de Franca, havia mais de duzentos anos. Simon peregrinou, durante cinco anos, e chegou, à Penha de França, em 1433. Encontrou a imagem a 19 de maio de 1434, dez anos após as referidas profecias. Portanto, ela foi posta ali, antes de 1229. Talvez se relacionasse com a reação provocada pelo nestorismo e o III Cincílio de Efeso (431), que o condenou. Foram causas de desenvolvimento verificado pela devoção a Nossa Senhora. Tentaram os hereges baní-la do seu trono glorioso; mas, os católicos reagiram e se afervoraram em venerá-la. Numerosos templos, dedicados a ídolos, converteram-se em igrejas que lhe foram consagradas.

No Puy, por exemplo, havia um grande templo consagrado a Mercúrio e para o qual o escultor Zenodoro modelou gigantesca estátua, antes do povoamento pelos romanos.

Da recusa de Nestório, em dar-lhe o título de Mãe de Deus, resultou ainda ser a Virgem Santíssima representada, por toda a parte, com o Menino Jesus nos braços.

O historiador do Santuário da Penha, em Salamanca, diz que "a imagem lá venerada corresponde bem à maior parte dos exemplares deixados pela Idade Média".

Contemplando a imagem de Nossa Senhora da Penha, de Vila Velha procuramos situá-la na iconografia cristã. Meditamos na evolução da inteligência humana, desde as suas primeiras manifestações artísticas, nas cavernas, quando o homem, conduzido naturalmente pelas suas faculdades psíquicas e pelo seu sentimento estético, tentava retratar, na matéria bruta, o que lhe impressionava o espírito. Do Quaternário Superior, quando se firmou a arte propriamente dita, pelo trabalho técnico, em esculturas de alto relevo, nas paredes das grutas e cavernas, figuras de marfim, sílex, rena, etc., culminando com a decantada Idade do Bronze, passamos aos reinos fabulosos da Assíria e da Pérsia, aos monumentos e à estatuária do lendário Egito, à Grécia, com a perfeição maravilhosa dos seus vasos e de suas esculturas, e a Roma, na imponência dos seus templos e preponderância dos seus ídolos, substituídos e suplantados pela grandeza do Cristianismo. Segundo Larousse, as primeiras igrejas não tinham imagens; eram apenas lugares de reuniões, porque se evitava, na religião nascente, tudo o que se relacionasse com o paganismo. "O verdadeiro templo é o coração do homem", dizia-se.

Este rigor, porém, teve duração efêmera. Às lutas desencadeadas pelos iconoclastas, seguiu-se o incremento ao culto das imagens. Converteu-se numa das principais formas da piedade e ornamentação das igrejas, relacionando-se intimamente com a liturgia. E os defensores das imagens, obrigados a justificar suas convicções, elaboraram uma verdadeira teologia vasada nas doutrinas neo-platônicas, que estabelecem relação direta entre a imagem e o seu protótipo, aureolados pelo mesmo respeito.

Transformou-se, então, a arte religiosa, antes mais ou menos simbolista, e alcançou sua grandeza épica, sobretudo, com a arte bizantina. "As imagens do Salvador e dos Santos, os fatos do Antigo e do Novo Testamento, — diz César Cantu, — deram às artes os assuntos que até então lhes eram fornecidos pelo politeísmo, conseguindo seduzir os bárbaros que, empenhados em conhecer a significação das pinturas, não raro, alcançaram o conhecimento das verdades morais do Evangelho". Por isso, Gregório III, dirigindo-se ao iconoclasta Leão, o Isauro, dizia que, "mediante as imagens, que nos recordam a figura representada, elevamos o nosso espírito embotado e grosseiro".

Tudo isso, de certo, porque o espírito humano volta-se necessariamente para o Belo e anseia pela intuição. Jamais lhe poderemos aniquilar ou comprimir as faculdades e o frêmito de criar, de realizar o que imaginou. Reage. Sobe. Atesta-o a iconografia profana ou religiosa, porque representa a revelação mais forte do poder criador da inteligência, uma necessidade invencível do sentimento.

Sim, o homem precisa ver, contemplar e conservar as figuras dos entes queridos, de tudo o que preza e do que se relaciona com o sobrenatural, com o Infinito! ... Recorre à poesia, quando a linguagem comum é incapaz de exprimir certos estados da alma e o apuro dos seus sentimentos; vale-se da escultura e da pintura, para representar o que jamais poderia dizer e multidões compreender, sem esse recurso intuitivo. Poesia e iconografia são portanto irmãs; trilham a mesma senda. Por isso, muito justamente, um arqueólogo risse que a "iconografia é a parte poética da arqueologia".

Gilbert e Chinchole, em "Les Origines", consideram as esculturas do Período Quaternário também uma brilhante manifestação da inteligência humana.

No Santuário da Penha, em Vila Velha, temos uma assertiva de tudo acima apreciado. Nota-se que o escultor anônimo procurou imprimir na imagem centenária uma expressão de ternura e majestade, que impressiona o visitante mais indiferente.

Ali, o historiador imparcial não somente encontra um relicário da história regional, como ainda uma fonte valiosa de estudos variados e interessantes.

Em 1723, Frei Agostinho de Santa Maria registrava: -   "Tem esta terra do Espírito Santo duas coisas que a fazem muito estimada e ilustre em todo o mundo, por ser muito singulares. A primeira é a Serra de Mestralva, mineral de Pedra iman...

A segunda, que sempre merece ser a primeira, é a imagem de Nossa Senhora da Penha, cujo Santuário está situado uma légua da barra. Com a mesma virtude, e maior prodigiosamente resplandece este santuário da Senhora, porque é Maria pedra Íman que atrai a Si todos os corações e ainda aqueles que parecem formados de aço".

("Santuário Mariano" . T.X, liv. I, Tit. XXV)

 

Fonte: O Relicário de um povo – O Santuário de Nossa Senhora da Penha, 2ª edição ano 1958
Autora: Maria Stella de Novaes
Compilação: Walter de Aguiar Filho, abril/2015

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

Os Ataques dos Franceses, Ingleses e Holandeses

O corsário, como todos os outros que ousaram transpor a barra sobre a qual se estende a sombra do Convento da Penha, não foi feliz

Ver Artigo
Pedro Palácios – Por Norbertino Bahiense

Em 1864, Frei Teotônio de Santa Humiliana, o último guardião do Convento, mandou colocar na gruta a seguinte lápide

Ver Artigo
Da Carta de Anchieta de 1584 – Por Norbertino Bahiense

As CARTAS JESUÍTICAS constituem fontes preciosas da história do Brasil nascente. Entre elas, vamos buscar uma de Anchieta, do ano de 1584

Ver Artigo
Escritura do Convento da Penha - Por Norbertino Bahiense

Carta de doação da Governadora Luisa Grinalda e seu adjunto o Capitão Miguel de Azeredo, desta Capitania do Espírito Santo, em 1591

Ver Artigo
Pedro Palácios, o São Francisco de Assis do Brasil

Fundador do santuário de Nossa Senhora da Penha, seu nome recorda as doces figuras dos ermitões de outrora

Ver Artigo