Morro do Moreno: Desde 1535
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Vasco Fernandes Coutinho Filho e D. Luiza Grimaldi

Estátua de Dona Luiza Grinalda, na Casa da Memória de Vila Velha

Aberta a sucessão da Capitania, pela morte do primeiro donatário, habilitou-se, de acordo com a legislação joanina, o filho natural de Vasco Coutinho, havido com Ana Vaz. Sua posse ocorreu pelos fins de 1563 ou muito no começo do ano seguinte, porque, em 1564, Belchior de Azeredo foi com Salvador de Sá auxiliá-lo na expulsão dos franceses do Rio de Janeiro e não seria capitão-mor. Ignora-se o nascimento e a vida pregressa. Não lhe devia, porém, ser desconhecido o senhorio que herdara. Há, nos escritos da época, referências vagas que induzem a se admitir que Vasco Filho e sua mãe habitaram as terras de Vila Velha antes da morte do pai.

Os atos praticados por Vasco Filho, testemunhados pelos jesuítas, franciscanos e autoridades da metrópole, retratam-no como homem prudente, justo e trabalhador. Deu relevo à Capitania com a ajuda prestada ao governo geral em homens e mantimentos, na expulsão de Villegaignon. (1) Ocorreram fatos significativos nos dezessete anos em que esteve no comando dos destinos do Espírito Santo e foram: repovoamento das glebas abandonadas, distribuição de novas sesmarias, construção de engenhos, elevando o número a seis; combate ao vício do jogo de cartas e dados que se generalizara com desagrado para Brás Afonso. Tratamento mais compreensível dispensado aos nativos com proveito geral. Reagiu aos invasores com denodo.

Em 1581, na sua fazendola da Praia da Costa, cuja residência se situava nas fraldas do Moreno, faleceu mansamente depois de assegurar a tensa de 30.000 réis à sua velha mãe. Pediu que o sepultassem na igreja de São Tiago, em Vitória.

Não deixou filhos de seu casamento com Luísa Grimaldi. Esta assumiu o governo assistida pelo capitão de ordenanças, Miguel de Azevedo, sobrinho de Belchior, até que se habilitassem os herdeiros do marido.

Gustavo Barroso, com a autoridade que lhe assiste, (2) declara que a viúva de Vasco Fernandes Coutinho Filho, entre as mulheres que governaram no Brasil colônia, foi "a mais notável de Vidas". Nos quatro anos que dirigiu os destinos da Capitania do Espírito Santo, sua ação, serena e segura, se fez sentir em todos os episódios, que feriram a normalidade administrativa. Ela defendeu com seus poucos homens, mas aguerridos, sob o comando de Miguel de Azeredo, a vila de Vitória do ataque de Tomás Cavendish.(3) Era a segunda visita que os ingleses faziam à terra capixaba. A primeira não passou de simples expectativa. Em 1582, três naus, as que haviam "roubado a nau do P. Comissário, Fr. João de Ribadaneira", indo para a baía do Prata, passaram pela costa do Espírito Santo e nada fizeram a mais do que assustar a população com seus três disparos. Mas a segunda, em 1592, causou susto e danos consideráveis. Não fosse a suspeita ter prevenido os ânimos das pessoas responsáveis, talvez a Vila não escapasse ao saque e à ruína. D. Luisa avisada, mandou construir dois fortins fronteiros ao Penedo, (4) em situação vantajosa para defender o ataque com pedras, flexas e auxílio dos índios, trazidos pelos jesuítas. (5) Foram os ingleses vencidos, deixando 40 homens, dos quais 8 prisioneiros. Entre os mortos estava Morgan, segunda pessoa do pirata.

Luísa Grimaldi doou os terrenos patrimoniais do Convento da Penha, que eram contíguos à sua Fazenda do Moreno. (6) Igual generosidade usou para com os beneditinos, em 1594, dando-lhes, na pessoa do Padre Fr. Damião, terras e sua própria casa, na ilha, para edificarem um convento. (7) Em 1593, sabendo da adjudicação da Capitania aos herdeiros de seu falecido marido, D. Luísa entregou o governo ao Cap. Miguel de Azevedo, embarcando para Portugal. Tomou hábito de dominicana, em Évora, onde faleceu em 1627, (8) aos oitenta e cinco anos de idade. Foi testemunha no processo de beatificação do ven. José de Anchieta.

Os historiadores escrevem Grimalda, Grinalda e Grimaldi. A ilustrada professora D. Maria Stella de Novais, em minuciosa e paciente pesquisa, publicou a biografia e genealogia da célebre "capitoa" do Espírito Santo. Dissipou-se a dúvida. D. Luísa pertencia à velha nobreza da Casa Grimaldi, cuja genealogia chego ao Palácio do Rei Childeberto II, no ano de 714. A época de 1500, era uma das famílias mais nobres de Gênova. Um ramo ascendeu ao treino de Mônaco. Concluo, dos nobres que aportaram à Capitania do Espírito Santo, ser ela a de melhor e mais pura linhagem.

 

NOTAS

(1) P.R.M. Galanti. ob. cit.

(2) "O governo feminino duma Capitania brasileira”. "O Cruzeiro" de 31-5-58

(3) Serafim Leite S.J. T.I. pág. 219.

(4) Origem do fortes S. João — hoje Club "Saldanha da Gama".

(5) Serafim Leite Ob. cit.

(6) Rower. Ob. cit.

(7) J. Teixeira de Oliveira. ob. cit. transcrição da nota 42.

(8) D. Maria Stella de Novais — "D. Luisa Grimaldi".

 

Fonte: Biografia de uma ilha, 1965
Autor: Luiz Serafim Derenzi
Compilação: Walter de Aguiar Filho, abril/2017

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