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As Ilhas Flutuantes - Por Adelpho Monjardim

Lagoa Jabaeté - Imagem Comunicação PMVV

No município de Viana, a poucos quilômetros da capital, situa-se a lagoa de Jabaeté. Geograficamente é insignificante. Todavia ali se verifica interessante fenômeno — as ilhas flutuantes. Avulta à nossa mente uma interrogação: como flutuar um corpo sólido, misto de terra e de rochas? Sucede, porém, que as mesmas não se compõem de tais elementos, mas de turfa. Freqüentemente as ilhas, que são três, mudam de posição, circundando a lagoa.

À Jabaeté prende-se formosa lenda, conservada pelo povo, decantada em versos e motivo de vitoriosa canção carnavalesca.

Prático, o engenheiro Olintho do Couto Aguirre, educado na Inglaterra, despindo a lagoa da lendária auréola, investigou-a como geólogo, indo fundo no assunto. Determinando a origem das estranhas formações, batizou-a, cientificamente, com o nome de “oloca”, abreviatura de Olintho Couto Aguirre, conforme praxe consagrada de conferir às espécies classificadas o nome do autor.

Não obstante ter desenvolvido desusada atividade para o rendimento comercial do rico depósito, o Dr. Aguirre nada conseguiu dos poderes públicos. Não dispondo de recursos financeiros para levar avante a empresa, viu-se forçado a encerrar as atividades. Todavia a advertência ficou. Um dia a lagoa voltará às manchetes.

A exploração comercial, prática e prosaica, acabaria por relegar a lenda ao esquecimento, com o que se ressentiria um patrimônio cultural que vem passando, com carinho e amor, de geração em geração. É lenda que nos parece transplantada de muito longe, fugindo às sagas escandinavas e à herança africana que opulenta o nosso folclore. Parece-nos originária das longínquas terras do Oriente.

Antigos ribeirinhos da Jabaeté contavam que em determinada época do ano, durante a noite, surgia linda galera, feericamente iluminada, que a região banhava de luz. Elegante, velas pandas, deslizava, qual cisne branco, pelas águas perturbadas apenas pela sua própria singradura. Em meio ao ofuscante luzeiro, risos, músicas e cantos, movimentava-se a corte de um príncipe. Segundo a lenda vinha buscar a noiva, escolhida entre as beldades da terra.

Da galera descia o príncipe com o luzido séquito. Por entre a multidão embevecida dirigia-se ao local onde o aguardavam quatro belíssimas donzelas. Três loiras, de pele alvíssima e olhos azuis e uma morena, cabelos cor da noite e lânguidos e esmeraldinos olhos. Ante o eleito, graciosas curvaram-se em gentil reverência. Ao fitá-las sentiu-se o príncipe atraído pela exótica e fascinante beleza da morena de olhos sensuais.

Finda a cerimônia o cortejo retornou à galera, levando o príncipe e a eleita. Entre luzes, como se fora uma chama viva, célere partiu a galera rumo ao norte. Ainda ao longe se ouviam os cânticos, que se iam diluindo com a distância.

Tristes, as moças recusadas, movidas por um mesmo e funesto intento, lançaram-se às águas da lagoa. Morreram de amor. Desde então surgiram as ilhas flutuantes. São as suas almas, dizem, que por castigo erram, indefinidamente, através das águas da lagoa.

 

Fonte: O Espírito Santo na História, na Lenda e no Folclore, 1983
Autor: Adelpho Poli Monjardim
Compilação: Walter de Aguiar Filho, setembro/2015

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