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A bola de fogo e o couro que se arrastava - Por Adelpho Monjardim

Tela de Hans Nabauer da Ilha de Vitória

No complexo sistema orográfico vitoriense a Pedra da Vigia se destaca como dos seus mais notórios acidentes.

De configuração trapezoidal, o imenso gneiss projeta-se a considerável altura sobre a montanha que lhe serve de base. Situa-se na parte meridional do sistema e ocupa o centro do cinturão de montanhas que circunda a ilha.

Por sua elevação e largura forma impressionante conjunto, sem dúvida a maior e mais imponente massa granítica da região. A face larga e lisa, qual semblante mongol, virada para o nascente, pigmentada por opulentos gravatás, impressiona fortemente. É algo sombria. Talvez contribuísse para a opinião pouco lisonjeira de Varnaghen quanto à escolha da Capital.

Corria o ano de 1915 quando chegamos a Vitória, de volta do Rio de Janeiro. A Capixaba, velho reduto Republicano, conservava ainda o aspecto patriarcal característico de uma época distante. Tudo ali respirava paz e harmonia como se fora uma só família.

Tradicional reduto de pescadores, o Porto das Pedreiras fornecia ao nosso folclore preciosos subsídios. Cada homem uma história viva, com que se enriquecia o anedotário marítimo do litoral vitoriense e das suas numerosas ilhas esparsas pela baía.

Arrastadas para a estreita e lamacenta praia as frágeis canoas, com as quais enfrentavam o mar alto, as ondas e os ventos; sentados na calçada de pedra ou acocorados à sombra de frondosa mangueira, pitando o cachimbo, desenrolavam os pescadores antigas histórias de lutas com os cações, os tigres dos nossos mares. Os naufrágios, narrados com as vivas cores da tragédia, eram de arrepiar. Quantas famílias perderam os seus chefes nos traiçoeiros baixios da Baixa Grande, túmulo de navios e de homens. Não obstante o traiçoeiro elemento e a própria profissão, justo seria que todos ali fossem excelentes nadadores, porém nenhum sequer sabia nadar!

Das fecundas e empolgantes histórias as mais interessantes versavam sobre almas penadas, que às desoras perlustravam as desertas praias do litoral e das ilhas, buscando vítimas. Eram as almas de antigos frades, procurando a quem pudessem revelar o segredo de ocultos tesouros. Invariavelmente as coisas se passavam assim: Os pescadores lançavam a rede de arrasto, por sua natureza muito grande. De distância em distância um homem segurava a espia para recolher a rede no momento oportuno. Os que ficavam nas pontas se distanciavam bastante dos companheiros e assim vulneráveis aos frades fantasmas.

Felizmente, para o bem de todos, nenhum pescador caiu nas garras de um fantasma. Mal surgia o monstro eles se atiravam no mar, tabu para as assombrações. Chispando fogo pelos olhos, irado o frade exclamava: — Foi o que te valeu, desgraçado!

Sem pretendermos bancar o amigo da onça, gostaríamos de conhecer um fato positivo e saber o que aconteceria à vítima. Mas quem nos contaria a história?

Entre as muitas lendas, correntes naqueles dias, lembramo-nos de uma quase esquecida — A Bola de Fogo e o Couro Que Se Arrastava. Logo que chegamos à Capixaba a ouvimos contar. O fenômeno costumava ocorrer na entrada do verão, quando enorme bola de fogo, partindo da Vigia, ia sumir-se na crista do Penedo. O outro sucedia na mesma estação, aí por volta das quatorze horas, na Vigia. Forte ruído, como se imenso couro estivesse sendo arrastado pedra abaixo, ouvia-se para o espanto de todos.

Aquela boa gente acreditava na existência de uma mina no seio da gigantesca montanha, mistério a desafiar a nossa vã filosofia. Mesmo hoje, com o avanço da Ciência, nada se sabe a respeito. Entretanto, morando todo esse tempo bem junto da misteriosa pedra, jamais presenciamos qualquer dos dois fenômenos.

 

Fonte: O Espírito Santo na História, na Lenda e no Folclore, 1983
Autor: Adelpho Poli Monjardim
Compilação: Walter de Aguiar Filho, setembro/2015

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